segunda-feira, 23 de julho de 2012

CRISE DA DÍVIDA SOBERANA

Crise da dívida soberana: Um possível guião de ficção para um filme.


Na pequena aldeia de Megacnavala, com apenas algumas dezenas de habitantes, há décadas que o café do Sr. Mora é a principal referência da economia local.
Outrora, ainda taberna, o café do Sr. Mora servia essencialmente vinho a copo, vindo diretamente das pipas que as abundantes vinhas de Megacnavala todos os anos enchiam.
Agora, os hábitos são bem diferentes, a cerveja, os refrigerantes e o café tomaram conta das preferências da clientela, e o vinho a copo é guardado apenas para alguns anciãos. Mas, não foram apenas as preferências dos clientes que mudaram, a inóspita taberna fora “promovida” a café há alguns anos quando o Sr. Mora investira na reformulação da infra estrutura.
Mesas, cadeiras e balcão novo, ecrã LCD de dimensões apreciáveis, ar condicionado para proporcionar um ambiente mais agradável no verão, já para não falar na esplanada à qual não faltavam os guarda sois.
O investimento ainda foi grande e as poupanças do Sr. Mora não foram suficientes.....Felizmente, com a recomendação do Presidente da Junta, algumas famílias mais abastadas da aldeia financiaram a progressiva remodelação da taberna, primeiro a família Tostão, depois a família Pessoa, e mais recentemente, aquando da instalação do ar condicionado e do LCD, o Sr. Franklin, norte-americano casado com uma jovem da aldeia que emigrara há alguns anos para os Estados Unidos.
A população acompanhou e apreciou a evolução de taberna a café e como esperado, as receitas geradas pelo café do Sr. Mora aumentaram. Maiores margens na cerveja e refrigerantes, do que no vinho, bem como o maior consumo, premeiam o investimento do Sr. Mora, para orgulho do Presidente da Junta de Megacnavala.
Os “investidores”, das famílias Tostão e Pessoa, ao Sr. Franklin, foram recebendo sempre os juros acordados com o Sr. Mora atempadamente e de acordo com o combinado.
Dado o clima de confiança que reinava na aldeia, com o alto patrocínio do Presidente da Junta, a família Tostão, primeiro “investidor” no café do Sr. Mora, aceitou há algum tempo renovar a dívida a pedido do Sr. Mora, acrescentando ainda algum capital adicional a uma taxa de juro mais baixa que a anterior para financiar a aquisição de um equipamento para tirar bebidas de pressão e um painel luminoso para o exterior do café.
O mesmo se passou com a Família Pessoa para substituir o ar condicionado que havia recentemente avariado, e ao Sr. Franklin pediu o Sr. Mora o mesmo, mas para ajudar a pagar a fornecedores.
Na realidade, a população da aldeia continuava a ser de apenas algumas dezenas de habitantes, e ainda que o consumo tenha aumentado desde os tempos da taberna, alguns dos habitués como o Manuel ou o Pedro, há alguns meses que se tornaram menos assíduos, e os custos de manutenção do café incomparavelmente superiores aos da taberna.
O Presidente da Junta, que em miúdo foi dos poucos da aldeia que fez a 4º Classe (de antigamente) logo à primeira, facto que o catapultou para o mais alto cargo político de Megacnavala, dizia ao dono do café:
“Ó Mora, assim não dá pá, então não se está mesmo a ver? Só em eletricidade deves pagar para cima de uma fortuna, mais a mais aos preços a que ela está. Se calhar tens que desligar o ar condicionado e o painel luminoso à noite, senão....”
Como o meio é pequeno e o Presidente da Junta falador, ficaram também os “investidores” rapidamente a saber que o negócio do Sr. Mora não evoluía tão bem como todos tinham perspetivado. Logo por azar, tem o Sr. Mora ainda este ano que pagar tudo o que deve à família Tostão e metade à família Pessoa.
Ao Sr. Franklin, nada este ano, mas tudo no início do próximo.
Elenco:
Estado membro da zona Euro com excesso de dívida, no papel de Sr. Mora
Agência de rating, no papel de Presidente da junta
Investidores nacionais, no papel das Famílias Tostão e Pessoa
Investidor estrangeiro, no papel de Sr. Fra
Desempregados, no papel de Manuel e Pedro

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